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terça-feira, 21 de junho de 2011

Copiosamente Original

Um palco vazio. Na mesa de conferência jaz um livro, solitário. Seguem-se cenas que em nada devem aos registros documentais desse gênero discursivo: as desculpas do mediador pelo atraso do palestrante, a chegada do autor e sua apresentação – tudo tomado por planos longos e impessoais. Os aborrecidos minutos iniciais de “Cópia Fiel” certamente não convidarão a ver o filme mais que a escassa plateia que aguarda que o palestrante James apresente sua obra.

O tema da palestra é também o da película, denominada segundo o título do livro. A reflexão sobre a relação entre cópia e original guia o debate pelo espaço de duas horas de projeção, originando um trabalho fronteiriço: o roteiro tem diálogos copiosos que em nada devem a uma obra literária; a fotografia rebuscada e elegante nada deve ao cinema; sem contar que o filme toca o campo teatral pela adoção do “teatro dentro do teatro” – característica que se faz presente na cena dramática ocidental há cinco séculos (com Shakespeare em “Hamlet” e “As You Like It” e com Pirandello em “Seis Personagens à Procura de um Autor”, por exemplo).

“Cópia Fiel” manda às favas os limites entre as artes e coloca em destaque a própria natureza artística. O que condiciona nosso olhar à obra de arte? Walter Benjamin diz que cada original é dotado de uma aura atribuída pela tradição, que torna o objeto único. Nesse sentido, as cópias das pinturas e esculturas, mesmo fieis, estariam destituídas desse caráter de unicidade. Por isso, a Mona Lisa original de Leonardo Da Vinci vale milhões de vezes mais que qualquer reprodução dela. A original tem um valor simbólico do qual as cópias estão destituídas - por isso, é protegida por um avançado aparato tecnológico e visitada diariamente por admiradores emba(s)bacados. Tal ideia é debatida no filme pelo casal de protagonistas enquanto passeiam pela histórica região da Toscana.

Ao sair da Universidade (onde era discutido o livro) e da loja de antiguidades de “Elle”, o filme ganha densidade, pois incorpora a natureza como elemento. A discussão em torno da originalidade ganha nova dimensão. Ela não está mais no objeto artístico, mas sim naquilo que é tomado como modelo para a criação da arte – a natureza, as pessoas. É possível recuperar o rastro histórico dessa reflexão. A relação entre arte e realidade já foi bastante discutida anteriormente, por inúmero autores, dentre eles Oscar Wilde, que, em sua “Decadência da mentira” (1889), afirmou que, na verdade, é a natureza que imita a arte, já que o modo como enxergamos a natureza é condicionado pelas artes que nos tomamos como referência.


O filme busca um meio termo entre essas conclusões, tocando numa questão (pós)moderna: não há uma realidade inata, o que há é o que apreendemos dela – e o que enxergamos é pautado por inúmeras influencias sociais e culturais. Sendo assim, somos o que inventamos ser. A arte, na medida em que nos leva a explorar novos “eus”, torna-se o espaço em que os indivíduos se dão conta de suas possibilidades.

Fernando Pessoa disse que é na distância de nós que descobrimos quem somos. O tema tem espaço na literatura já alguns séculos. Se Abbas Kiarostami não inovou no tema, inovou no modo de tratá-lo, já que leva suas personagens a renegociarem constantemente seu lugar na ação, o que multiplica a força de sua “encenação”.

As personagens de “Cópia Fiel” experimentam literalmente a teoria que defende a identificação dos leitores com as personagens criadas: ao invés de experimentarem outras vidas à distância, a mulher e James lançam-se no jogo de criação de personagens, abandonando os papéis que usualmente interpretavam. A Toscana torna-se palco de um processo de descoberta de si e de desdobramento do eu. A ideia de que o mundo é um palco e nós meros atores é em “Cópia Fiel” muito trabalhada, já que o “travestimento” parte dos dois lados – conhecemos pouco das personagens até elas começarem a se reinventar. Ao mesmo tempo, o espectador, afoito para entender o que se passa, revisa mentalmente o caminho que já foi percorrido pelas personagens e questiona tal representação: será essa atuação mais real do que o papel assumido pelas personagens em seu cotidiano? Ou será apenas uma realidade mais fictícia?

Para compor a questão cinematograficamente, o diretor utiliza os jogos de espelho que multiplicam a “realidade”, detalhando suas várias gradações. No antiquário escuro, onde predominam originais e cópias de obras de arte, vemos James conversar com “Elle”. Na clara praça da cidadezinha da Toscana para onde as personagens viajam, apenas vemos a escultura dos amantes refletida no espelho que está no meio do casal, em segundo plano – a “originalidade” da mulher e de James é aqui ressaltada, mesmo que ambos estejam dando corpo às personagens que criaram (porém, onde exatamente acaba a realidade e começa a ficção?).

O belo cenário, aliás, não serve apenas para ostentar histórias de amor pueris: nele a amargurada mãe solteira desdobra-se na esposa de James: ora cética, ora melodramática, ora romântica, ora sensual – toda uma vida (ou então muitas vidas) compactada em umas poucas horas, o espaço de uma tarde. Quando o casal de Kiarostami discute a relação turbulenta que inventou para si, está discutindo o papel de cada um de nós na sociedade: os papéis sociais que interpretamos são em grande parte condicionados pela nossa herança cultural – é por isso que a língua, importante fator identitário, desempenha papel fundamental na película, construindo simbolicamente a aproximação e o distanciamento entre a(s) mulher(es) e James.

Juliette Binoche é, ao meu ver, grande responsável por essa história complexa (e até mesmo academicizante) funcionar tão bem. Não é novidade dizer que a atriz atua e fotografa muito bem. Aqui, no entanto, constrói nos mínimos detalhes as nuances de suas personagens, circulando com fluidez pelo francês, italiano e inglês – idiomas que mostra dominar com perfeição. É muito difícil encontrar numa pessoa essa percepção sensível do estranho ao ponto de conseguir colocar-se tão inteiramente em sua pele (questão, aliás, que é o cerne do filme). A atriz faz com que nos identifiquemos com cada desdobramento que cria de si prória, o que só faz sublinhar o caráter representativo da arte – e da vida.

Porém, se no campo da arte as possibilidades são infinitas, na vida temos de lidar com os liames que nos foram socialmente impostos. A mulher e James precisam pôr um ponto final em sua encenação no momento em que esses liames são ameaçados. Mas como terminar algo que não se sabe aonde começou? Nesse momento, já pouco importa se James e “Ellle” tem um relacionamento amoroso anterior aos acontecimentos narrados na película ou se apenas fingem, se os sentimentos que expressam são originais ou cópias. Repito, assim, a questão que James lançou a “Elle” quando esta lhe disse que a tela que atraía a atenção da multidão de visitantes do antiquário era uma cópia: as pessoas precisam mesmo saber disso?

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

E quando o referencial se omite?

Referencial. Segundo o dicionário Michaelis da Língua Portuguesa, é aquilo que é utilizado como referência. Logo nas primeiras aulas da oitava série do Ensino Fundamental (hoje conhecido como nono ano), os estudantes se deparam com essa palavra. "Tudo depende do referencial", repete exaustivamente o professor, enquanto anda, de um lado pro outro na sala, contando como a maçã que caiu na cabeça de Newton o motivou a desenvolver a Lei da Gravitação Universal. "Esses fatos anedóticos tornam a aula menos dura, menos maçante. Sou um professor moderno", pensa ele. Será o suficiente? Suspeito que não.

Ao longo da minha vida escolar, a justificativa que mais ouvi de colegas sobre seu baixo desempenho em certas disciplinas era a de que "o professor não instigava". Aliás, minto: ainda ouço isso pra caramba nos corredores do Pavilhão de Aulas Thales de Azevedo, no meu amado campus de São Lázaro. Pensei em usar o termo "desculpa", mas voltei atrás: desculpa daria a ideia de que não acredito no que os meus colegas falam, que penso que inventam isso para justificar sua preguiça e/ou falta de disciplina. O caso é que eu acredito e concordo plenamente: a maior parte dos professores não se importa em instigar o estudante a estudar.

Estava conversando essa semana com uns amigos sobre o ódio que a maior parte da intelectualidade nutre contra o marketing, a publicidade e seus operadores. "Eles embalam lixo e vendem como luxo", me disseram certa feita; "convencem as pessoas a comprar coisas que elas não precisam e que, por sinal, nem os próprios publicitários compram", me disse uma vez uma amiga que trabalhou algum tempo em uma agência de publicidade. Boa parte dessas críticas vem do pessoal que estuda e trabalha com as tais Ciências Humanas, aquele povo bacana que anda por aí, em sua maioria, com camisas vermelhas e cópias do Manifesto do Partido Comunista debaixo do braço. O mesmo povo que esperneia pelos arredores de São Lázaro, apontando a ineficiência dos professores em instigar os estudantes. Não percebem que enquanto criticam e desprezam os estudos sobre o marketing, estão, na verdade, apenas trilhando o caminho para serem a próxima geração de professores chatos e quadrados; estão cumprindo o primeiro passo do Manual Prático de Como Não Instigar os Alunos a Estudar.

Por mais inovadora e interativa que seja a sua metodologia de ensino, por mais que você saiba a Pedagogia da Autonomia de cor, quando você está em uma sala de aula, na frente de estudantes, sejam eles crianças, adolescentes ou adultos, eles supõem que você conhece mais daquela disciplina, daquele assunto sobre o qual você se propõe a lecionar, do que eles. Suposição lógica e válida (pelo menos teoricamente). Você é a referência daqueles indivíduos.

O que parece, no entanto, é que a maior parte dos professores ignora esse fato. Chegam nas salas de aula com suas mochilinhas, seus caderninhos e, claro, seu pen drive, aonde está contida toda a aula, em uma apresentação do Powerpoint. Falam, esperam questionamentos que raramente chegam, levantam debates que quase nunca são frutíferos e saem dizendo que o sistema é bruto e imutável. Esquecem de vender seu peixe, de mostrar para aqueles estudantes que estudar é bacana e que tudo que está contido naqueles livros faz parte da vida deles. Esquecem de serem gentis, de serem sensíveis às diferentes realidades de seus educandos e de serem, acima de tudo, um exemplo. Eu resolvi estudar História para ser igual ao meu professor da quinta série, que, além de saber muito de História, era engraçado pra caramba. A postura dele me passava a mensagem que era possível sim ser culto, jovem e ainda engraçado, divertido, contradizendo aquele velho estereótipo de "jovem com alma de velho porquê estuda muito". Ele construiu uma imagem. É o que chamam de Marketing Pessoal.

Não digo que não hajam sérios problemas estruturais no sistema(?) educacional brasileiro. Mas acho que para que tais problemas sejam realmente sanados, é necessário, primeiro, que os professores se compreendam enquanto educadores, levando em consideração que, apesar de alguns não gostarem de admitir, a educação é sim um sacerdócio. É bem como ouvi essa semana: é mais eficiente fornecer aos cidadãos armas para criticar as informações que eles recebem do que diminuir as informações que eles recebem; a criticidade vai permanecer com eles para sempre, enquanto não se sabe até quando o silêncio informacional pode durar.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Ano novo, vida nova, blog novo

Coisas inovadoras estão quase sempre relacionadas a rupturas. A concepção heliocêntrica do Universo, a teoria evolucionista de Darwin, o movimento feminista do século XX, tudo isso rompeu com um conjunto já existente de crenças e práticas. Não há como discordar disso. Eu, no entanto, não sei direito por quê, mas desde sempre, ou, pelo menos, desde que me lembro, tendo a encarar inovações como sínteses.

Galileu não teria gritado aos quatro ventos que a Terra girava em torno do Sol se não tivesse tomado conhecimento do trabalho de Copérnico; Darwin não se dedicaria a estudar as semelhanças e diferenças entre animais e seus habitats se não tivesse lido Lamarck; Carol Hanisch não iria às ruas berrar que "o pessoal é político" se Margaret Sanger não tivesse chamado a atenção pras mulheres enquanto indivíduos próprios um século antes. Em outras palavras: entendo as inovações como produto de uma síntese de ideias já existentes ocorrida em um ambiente propenso a isso, sendo tal propensão do ambiente moldada justamente por essas ideias que virão a ser sintetizadas.

Mas e os precursores, aqueles que "inventam" a coisa? Não consigo concordar com Hegel e sua ideia de "indivíduos histórico-mundiais", que realizam a Ideia do Espírito Absoluto no mundo. Penso que os anseios de tais indivíduos não podem ser visto como dissociados de sua época e de sua sociedade, assim como suas realizações, que não devem ser encaradas como manifestações de tal Espírito, levando a humanidade rumo à iluminação, mas, sim, como uma resposta às tensões, coletivas e individuais, de seu tempo.

Sei que não há nada de original em minhas ideias, e se escrevo chamando-as de minhas não é apenas por não ter aporte intelectual (leia-se "bibliográfico") o suficiente para embasá-las, mas por ter grande parte de minhas atitudes norteadas por elas. Não acredito em verdades absolutas, muito menos indivíduos absolutos. Tudo depende do referencial. E, apesar de não levar muito a sério essas coisas de "ano novo, vida nova", sou um advogado da incoerência e pretendo ter novos referenciais em minha vida a partir de agora. Estou a romper. E a sintetizar.

Como diz Fernanda Takai, "tudo é uma questão de manter a mente esperta, a espinha ereta e o coração tranquilo".